Abril de 2012: A Festa do Buraco (*Folha cobriu o evento)

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Hoje, dia em que a

faz 97 anos, postarei um artigo escrito pela repórter Laura Capriglione, publicado no jornal.


As famílias de judeus ortodoxos quase corriam pelo Bom Retiro [bairro onde moro], no centro de São Paulo, no final da tarde de ontem. Dali a poucos minutos começaria o shabat, dia de descanso que representa, na tradição religiosa, o sétimo dia da criação.

Cobertos por pesadas roupas negras, os religiosos acabaram cruzando, no meio do caminho, com uma cantoria inusitada: “Com quem será, com quem será, com quem será que o buraco vai casar? Vai depender, vai depender, vai depender

Os cantores eram moradores do bairro, 55 na hora de pico, reunidos em torno de uma boca de lobo sem tampa, na esquina das ruas Guarani e Amazonas, coração do Bom Retiro.

Uma ratazana morta jazia no fundo do buraco de um metro de extensão por um metro de profundidade. O cheiro era nauseante.

Por iniciativa de Sergio Beni Luftglas, 45, blogueiro e figurante em novelas e filmes, nascido e criado ali, o grupo resolveu protestar.

“Já estamos com essa cloaca aberta no meio da calçada há um mês. Em vez de providenciar uma nova tampa [a velha, de ferro, provavelmente foi roubada], o que a Prefeitura fez até agora foi colocar esse cavalete aqui.”

Ontem, o cavalete estava bonito, decorado com balões de ar vermelhos.

Ao lado do buraco, a mesinha cedida por um vizinho era o foco das atenções dos meninos Vivian, 8, e Henrique, 8, que apareceram na festinha com outros cinco amigos. É que, em cima do móvel, brilhava um bolo de nozes e morango doado pela padaria San Remo, tradicional no pedaço.

Beni queria que o parabéns ao buraco fosse cantado em quatro versões: português, hebraico, espanhol e coreano -representando as principais comunidades que convivem no bairro cheio de sotaques.

O pessoal do açougue em frente aderiu. Motorista e ajudante de um caminhão de transporte de alimentos também. E a criançada. Repetiram três vezes, e aos gritos, o parabéns a você em português. Sem esquecer o inevitável “Com quem será?” -e o buraco exalando seus miasmas. O pessoal reclamava.

Então veio o “Parabéns” em hebraico.

comerciante, há 40 morando na vizinhança, puxava a cantoria. O coro chegou a reunir 12 vozes.

“A gente veio protestar porque há muitas pessoas idosas no bairro, e vai ser um estrago se alguém distraído cair no buraco”, disse ela.

O casal de namorados paraguaios e dois bolivianos, trabalhadores que acabavam de sair do expediente em uma confecção de roupas (de que o bairro está cheio), defenderam orgulhosos o idioma castelhano: “Cumpleaños feliz, cumpleaños feliz”.

“Coreano, ô coreano!” A turma animada abordava todo e cada um que passava com os olhinhos puxados. Mas não rolou. “Pena, mas eles são mesmo muito tímidos”, justificou Mauro Krasilchic, 54, membro do Conselho de Segurança do bairro.

Os festeiros de combate prometem novas comemorações malucas. “Agora, vamos fazer a celebração do Bar-Mitzvá de um lixão que há 13 anos funciona sem fiscalização na esquina das ruas Bandeirantes e Joaquim Murtinho”, planeja Beni, referindo-se à cerimônia judaica que celebra a passagem da infância à vida adulta.

“Somos um bairro multicultural, em que se espalham tesouros da cidade, como a Pinacoteca, o Museu da Língua Portuguesa, a Sala São Paulo, o Jardim da Luz (próxima foto). É um absurdo o descuido com que o poder público nos tem contemplado”, diz Krasilchic.

O protesto de ontem, parece, funcionou. A Subprefeitura da Sé disse por meio da assessoria de imprensa que o buraco da discórdia, de hoje não passa. Será tampado.


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